EUA querem 'conquistar' mulheres do Afeganistão com a ajuda de fuzileiras



O cabo Michele Greco-Lucchina lidera centro de 'estudos culturais' em Camp Pendleton, Califórnia, antes de ser mandada ao Afeganistão.  (Foto: The New York Times)


Numa aula recente de “conscientização cultural”, as fuzileiras americanas rabiscavam cuidadosamente anotações enquanto o instrutor as orientava sobre o que fazer e o que não fazer quando abordar moradores de vilas no Afeganistão: não comece a disparar perguntas, comece brincando com as crianças, não deixe o intérprete sequestrar a conversa.

E outra coisa: “Se usar um rabo-de-cavalo”, disse a instrutora Marina Kielpinski, “deixe-o para fora da parte de trás do capacete, para que as pessoas vejam que você é mulher”.

Essas não são as marines típicas aqui no áspero chaparral de Camp Pendleton, onde 40 mulheres jovens estão se preparando para servir no Afeganistão em um dos experimentos mais avançados do Exército americano.Em abril, elas começarão a trabalhar como membros das primeiras equipes “de envolvimento feminino”, o nome dado pelos militares a unidades de quatro ou cinco membros que acompanharão os homens em patrulhas na província de Helmand para tentar conquistar mulheres do Afeganistão rural, que culturalmente estão fora do alcance para homens de fora. Os times, que devem se reunir com mulheres afegãs em suas casas, avaliar sua necessidade de ajuda e coletar informações, são parte da campanha do general Stanley A. McChrystal para conquistar corações e mentes afegãos. Suas oficiais dizem que não é possível ganhar a confiança da população do Afeganistão se só conversarem com metade dela. 


“Sabemos que podemos fazer a diferença”, disse a capitã Emily Naslund, de 26 anos, oficial executiva e segunda em comando. Como outras 39 mulheres, Naslund se candidatou como voluntária para o programa e radia exuberância, mas disse que não é inocente e sabe das frustrações e perigos pela frente. Metade das mulheres já foi posicionada, a maioria no Iraque.

“Todas nós sabemos que o que esperamos geralmente acaba não acontecendo”, disse a sargenta Melissa Hernandez, de 35 anos, que se alistou porque queria algo diferente do seu trabalho de escritório em Camp Victory, sede militar americana em Bagdá.

Como previsto, as equipes irão trabalhar como políticos americanos que fazem campanha de porta em porta para saber sobre o que os eleitores se interessam. Uma equipe deve chegar a uma vila, obter permissão do ancião para falar com as mulheres, se estabelecer numa área, entregar material escolar e remédio, beber chá, conversar e, idealmente, obter informações sobre a vila, as queixas locais e o Talibã.Qualquer que seja o resultado, as equipes refletem o quanto o exército se adaptou ao longo de nove anos de guerra, não apenas na forma como combate, mas na mudança dos papéis dos sexos em sua hierarquia. As mulheres correspondem a apenas 6% da tropa, que cultiva uma imagem associada à testosterona, e elas ainda são oficialmente barradas de ramos de combate, como a infantaria.

Mas num truque de mágica burocrático, usado pelo Exército e pela Marinha dos EUA no Iraque e no Afeganistao quando se precisou das mulheres para tarefas críticas como destruição de bombas ou inteligência, as equipes de envolvimento feminino devem ser “anexadas” a unidades de infantaria totalmente masculinas dentro da primeira Força Expedicionária da Marinha – uma fonte de orgulho e empolgação para elas.

“Quando fiquei sabendo, disse: ‘É isso, vamos lá!’”, afirmou a militar Vanessa Jones, 25 anos.

A ideia das equipes surgiu do programa “Leoa” no Iraque, que usou marines mulheres para revistar mulheres iraquianas em postos de controle. No último ano no Afeganistão, o exército e a marinha juntaram equipes de envolvimento feminino ad hoc, mas as mulheres foram apressadamente removidas de trabalhos como cozinheiras ou engenheiras.

As mulheres de Pendleton estão entre as primeiras a serem treinadas exclusivamente para a missão. “Todo marine quer sair da cerca”, disse a oficial Michele Greco-Lucchina, 22 anos, referindo-se a tarefas fora da base. “Todos nós nos alistamos por diferentes motivos, mas essa é a base de ser marine”.

As mulheres disseram não estar ansiosas pelo combate e que trabalhariam em áreas livres de militantes. Porém, numa guerra sem linhas de frente, elas frequentaram um curso de reciclagem de treinamento de combate, a fim de estarem preparadas para emboscadas e atiradores.

Nas patrulhas, as mulheres irão carregar rifles M-4, que são mais curtos e mais simples de manusear do que as M-16, o padrão militar, mas elas foram instruídas a, uma vez dentro da base afegã, com os guardas marinhos posicionados do lado de fora, sentindo segurança, remover seus rifles e tirar seus equipamentos intimidadores de guerra, ou seja, capacetes e coletes à prova de balas.Elas também foram orientadas a serem sensíveis aos hábitos locais de vestuário e usar lenços cobrindo a cabeça sob o capacete ou, se estiver quente demais ou incômodo, manter o lenço ao redor do pescoço e usá-los para cobrir a cabeça quando entrarem na casa e tirarem o capacete.

As fuzileirass que trabalharam com as equipes ad hoc no Afeganistão disseram que as mulheres das áreas rurais de lá, raramente vistas por pessoas de fora, tinham mais influência em suas vilas do que os comandantes homens supunham, e que a boa vontade dessas mulheres poderia tornar os afegãos em geral (homens e mulheres) menos cautelosos em relação às tropas americanas.

O capitão Matt Pottinger, oficial de inteligência baseado na capital, Cabul, que ajudou a criar e treinar a primeira equipe de envolvimento do Afeganistão, recentemente escreveu que, quando um de seus times visitou uma vila no sul do país, um homem de barba grisalha abriu sua casa para as mulheres dizendo: “Seus homens vêm para brigar, mas sabemos que as mulheres estão aqui para ajudar”.

O homem também admitiu timidamente, como Pottinger escreveu na publicação online "Small Wars Journal", que as mulheres são “boas para meus velhos olhos”.
Mulheres de zonas rurais do Afeganistão, que se encontram em poços e transmitem notícias sobre a vila, são muitas vezes repositórios de informações sobre o tecido social de um distrito, traficantes de influência e militantes, todos dados cruciais para as forcas armadas americanas. Em algumas ocasiões, disse Pottinger em mensagem de e-mail, as mulheres fornecem informações sobre insurgentes específicos e os fabricantes de bombas.

Como parte de suas conversas com mulheres afegãs, as marines devem fazer perguntas básicas, como o problema mais difícil enfrentado pela vila. As respostas vão para uma base de dados para orientar trabalhadores militares e de ajuda humanitária. Como a instrutora Kielpinski disse às fuzileiras: “Se a população disse que o maior problema é a irrigação e sua unidade faz algo para melhorá-la, é um grande sucesso”.

Por ora, as marines continuam apreensivas sobre as incertezas que irão encontrar. A capitã Claire Henry, de 27 anos, principal comandante da equipe, disse estar preocupada, como qualquer oficial, com suas responsabilidades para com as mulheres que trabalham sob seu comando. “Estou prestes a levar fuzileiras para o caminho do perigo”, disse ela, “e no final do dia quero garantir que dei o treinamento certo e que elas estejam fisicamente e mentalmente preparadas”.
Elisabeth BumillerDo New York Times, em Camp Pendleton, Califórnia
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